As noites quentes do Âncora do Marujo

Posted on 13/12/2007

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por Arivaldo Almeida

Av. Carlos Gomes, Rua Chile, Av. Sete de Setembro e Praça Castro Alves, durante as horas conhecidas como comerciais, formam o palco das grandes negociações, das transações financeiras, do comércio propriamente dito. Vende-se, troca-se, recupera-se. Ao entardecer, as ruas e avenidas ganham novas cores, o astro rei se despede, deixando a Baía de Todos os Santos com um tom acinzentado, ocasionando uma escuridão no imenso mar que nos banha. Surgem outros astros, outras estrelas. Grace, Kelly, Hágatha, Shirley.  Nomes fictícios que dão cores às noites quentes da cidade. O ofuscamento do astro rei ganha novas cores, cores do mundo desconhecido, cores da luxúria, cores na busca pelo reconhecimento social.

As largas avenidas ficam pequenas, os espaços ficam demarcados, os guetos são formados. O centro da cidade que durante o dia realiza práticas comerciais das mais diversas, passa a comercializar alegria, descontração, prazer e transforma um simples boteco em ponto de encontro, entretenimento e cultura. É um boteco desses com menos de 10 metros quadrados, mas capaz de transpor barreiras, romper limites e despertar momentos de prazer às pessoas que o visitam.

Um boteco conhecido como “Âncora do Marujo”, aberto de segundas a domingo, das 22h às 4h, transformado em estrelas os artistas da noite. “Em minha casa as portas estão sempre abertas a todos aqueles que quiserem entrar. Não temos preconceito, o que vendemos é alegria. Fico feliz em poder contribuir democraticamente com a felicidade dos meninos que se apresentam, fico feliz em saber que contribuo com diversão da cidade”, diz Fernando, proprietário do bar.

A alegria entusiasma os freqüentadores do bar, é possível ver do adolescente ao senhor na melhor idade, não há distinção. O palco fica bem próximo do público, deixando o local mais intimista, possibilitando um diálogo ou uma dança entre os freqüentadores e os artistas que se apresentam. Bate-papos, entrevistas e enquetes levam a galera ao delírio, a uma explosão de sorrisos. “Acredito que este é um dos espaços onde a cultura e a democracia imperam juntas”, comenta o estilista Miguel Alexandre.

É hora do show, é hora da transformação humana. Purpurinas, perucas e roupas confeccionadas especialmente para o momento, e muita maquiagem, invadem o camarim. Os meninos começam a montagem, um processo lento, demorado, mas gratificante para ambas as partes. Uma cortina de cor vermelha é aberta, uma luz forte amarelada surge, é hora da estrela da noite, é a hora de Daniel Souza, 21 anos, que se transforma em Haghata Himan, que, em cima de um longo salto, inicia o show.

Diva da noite
As músicas embalam o ambiente, o artista que ao longo do dia fora atendente de telemarketing, inicia sua nova jornada, diferente do que fizera durante todo o dia. Agora, todos os traços de um menino tímido e acanhado, conhecido como Daniel, passam por uma metamorfose, uma transposição de ideologias. Convida o público a bailar, dançar e interpretar as grandes canções de cantoras famosas no mundo. De Whitney Houston a Daniela Mercury, de “I love you” a “Olha o Gandhy aê!!!”.

O show não pode parar, a alegria toma conta. Os 10 metros parecem ter passado por uma grande reforma. O espaço ganha novas formas e cores, a cerveja começa a fazer efeito, os freqüentadores rompem com os tabus que rondam a sociedade, transformam a noite em inesquecível, capaz de levar os amantes de música clássica a se esbaldarem no arrocha e, ao saírem, imaginar que estavam junto à orquestra sinfônica da Bahia. Devaneio!!

Ser Daniel ou Haghata Híman
Daniel acorda cedo. Tem todos os afazeres de um jovem normal. Ao deixar o batente na operadora de telemarketing, descansa, reflete, busca inspiração para a noite, a hora que terá que brilhar. Por volta das 22h, o processo de transformação tem início. O homem esconde o palmo de Adão na maquiagem, retira os pelos que por ventura tiverem nascido durante o dia, o batom torneia os lábios, e a silhueta do corpo ganha adereços. Enfim, Haghata Himan.

“Tenho um cotidiano como qualquer outra pessoa, o que me diferencia dos demais é a coragem pela busca do meu próprio reconhecimento, pelo artista que trago comigo. Sei diferenciar bem as coisas, sei viver da melhor maneira possível, esse é o meu momento de ser estrela”, diz Hagatha Himan, sacudindo uma echarpe de plumas cor de rosa.

(novembro de 2006)

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Posted in: CULTURA