Marcos Labanca e seu teclado

Posted on 27/08/2007

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por Daiana Rodrigues

A Avenida Sete é um local agitado, que mistura rostos, cores, cheiros e sons. Mas, mesmo quem passa distraidamente deve ter percebido Marcos Labanca e seu teclado. Desde seu nascimento, o músico não possui metade de seus braços e pernas, mesmo assim ele e sua música estão há 21 anos animando o cotidiano da Sete de Setembro. Algumas pessoas o consideram “ponto de referência”, devido ao tempo em que ele está lá. Viver e fazer música são as vontades de Marcos.

Aos 60 anos, o simpático pernambucano, que aprendeu a tocar de ouvido e estudou partituras com auxílio de um professor, fala sobre música e vida. “A música é um dom de Deus, já se nasce com ela”, garante ele. Desde que chegou à Bahia, Labanca escolheu a Avenida Sete como local de trabalho. A principal razão para se situar na região foi o movimento, visto que tira seu sustento de seu ‘dom’. De segunda a sábado, Marcos Labanca, com a ajuda de Dinho, um camelô, monta o teclado, banquinho e caixa para moedas. Sempre ao lado do módulo policial, em frente ao Relógio de São Pedro.

As serestas, que são músicas como as serenatas, mais românticas e antigas, e o forró são os ritmos preferidos do público, na opinião do músico. Ele diz que toca para várias gerações, por isto dedilha uma variedade de estilos, que vão do clássico ao popular. As pessoas param para ouvi-lo, alguns conversam, outros fazem brincadeiras. No meio da entrevista, inesperadamente, um senhor pergunta como se faz para tirar o dinheiro da caixinha. Ele fica calado. O senhor ri, Marcos retribui o sorriso. O homem, então, deposita a moeda. “Aqui é assim, todos me conhecem. De vez em quando, acontecem coisas parecidas com esta”, explica Marcos Labanca.

A chuva dificulta seu trabalho. Ele gostaria que a prefeitura pudesse ajudá-lo, pondo uma guarita que o protegesse. Um dia chuvoso também é ruim porque o movimento diminui e ele arrecada menos dinheiro. Por causa de imprevistos como este, ele completa sua renda fazendo outros eventos: batizados, casamentos, aniversários.

Marcos Labanca contou que já tocou acordeom. Tocar é trabalho e diversão. Algumas pessoas gostariam que ele ensinasse música, mas como ele fica da manhã até a noite na Avenida Sete de Setembro, não tem condições de aceitar esta outra possibilidade de serviço. Marcos se sente uma pessoa útil, “porque, às vezes, passa alguém ‘aperreado’ e escuta a minha música, esquece dos problemas, depois volta e agradece”. É este tipo de ajuda que vale a pena, na opinião dele.

Marcos é avô e conta com alegria que um de seus três netos se interessa pela música. “Minha filha não quis aprender nenhum instrumento, apesar de gostar de ouvir. O meu neto, não. Ele liga o som, começa a cantar e dançar, aí eu digo: este puxou o avô”, disse o músico. Feliz por ser um trabalhador honesto e poder sustentar a sua família, ele encerra a entrevista dizendo: “A música vence qualquer barreira”.

(junho de 2003)

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