Teatro Gamboa

Posted on 09/06/2007

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por Bárbara Paula

No próximo dia 13 de junho, o centro de Salvador tem muito para comemorar: o Teatro Gamboa, uma das primeiras casas de teatro completa 33 anos. Na mesma data a Escola de Teatro da UFBA comemora o mesmo tempo de existência. Coincidências a parte, essa casa de arte e cultura tem um valor histórico de grande importância para o teatro baiano.

Localizado no coração da cidade, no Largo dos Aflitos, com belíssima vista para a Baía de Todos os Santos e capacidade máxima para um público de 98 pessoas, a aparência externa em total harmonia com a rua calçada por paralelepípedos, relembra as casas antigas do centro da cidade. Na entrada, a cadeira, a mesa com o livro de visita e o pequeno balcão, onde funciona o modesto bar, tudo em madeira antiga, contrastando com a idéia de modernismo da contemporaneidade.

O primeiro cartaz trás um depoimento, ainda atual, de um grande escritor baiano: “Estamos de parabéns todos os que vivemos na Bahia, com a inauguração de mais um teatro em nossa terra. Todos nós devemos apoiar este teatro e louvar o esforço do seu criador Eduardo Gábus. Salvador, junho de 1974. Jorge Amado”.

Os esforços do criador não foram devidamente louvados, tanto que, em 1990, Gabus vende o teatro e vai trabalhar no Rio de Janeiro com a talentosa Bibi Ferreira. O material gráfico de acervo do Gamboa, que contava toda a sua história, foi deixado por Gabus na Fundação Cultural – Teatro Castro Alves. Infelizmente, como conta o atual administrador, Argeu Nascimento, “Houve um incêndio, nesta época, no TCA e o arquivo foi atingido. Perdemos toda a nossa história”.

Em 1992, o arquiteto e bancário Maurício Mendes Del Rei adquiriu o teatro, vendendo dois anos depois para o ator, diretor e cineasta Perry Salles, que, entre idas e vindas, residiu em Salvador de 1994 a 2003. Nesse período, a casa foi arrendada durante um ano para a produtora cultural Maria Prado. De 2003 a 2004, a secretária executiva carioca Márcia Rabelo, irmã de Perry, era quem gerenciava. Após o convite para trabalhar na Empresa Baiana de Alimentos S/A – EBAL, ela resolve seguir a carreira que sempre lhe atraiu, a administrativa.

Administrador de empresas por formação e produtor teatral por paixão, o sócio e irmão de Perry, Argeu Nascimento, assumiu a responsabilidade da gestão do teatro em 29 de abril de 2004. Fazendo dos quatro, charmosos e aconchegantes, andares, o seu lar. Com piso de madeira largas e paredes com fotos antigas do mundo teatral, o dormitório acoplado a uma cozinha americana também funciona como escritório. As janelas têm vista privilegiada para a Baía. O lar doce lar é divido com seu fiel funcionário e amigo Bita, como é conhecido popularmente Leonel da Silva. Em 1998, eles se conheceram em Lençóis e passaram a trabalhar juntos em áreas bem distintas da atual.

Essa parceria de sucesso divide toda a responsabilidade, nem a faxina escapa a essa regra. Tendo contato pela primeira vez com o universo cênico, Bita aprendeu a operar a iluminação, sonorização, bar, bilheteria, além da administração. Essa oportunidade foi única para o Bita e ele admite: “É uma experiência de vida. Nunca tinha tido acesso ao teatro. Hoje cuido desde a parte técnica até um pouco da direção”.

Grandes sucessos passaram pelo palco do Gamboa, que apresentou demonstrações artísticas bem diversificadas. Uma das preferidas de Argeu é o monólogo Casa de Ferro, pelo trabalho intenso de interpretação através dos cinco anos de pesquisa do ator Maurício Assunção, indicado ao Prêmio Braskem de Melhor Ator 2006. Além do grupo musical ¼ de Tom, encantando as Noites de Blues que aconteciam no teatro.

A atriz Fabiana Pharaóh, participando do elenco da peça ÉDuSek, atualmente em cartaz, elogia a equipe técnica, em especial ao Bita. “Uma vez minha bolsa quebrou a alça em cena, e no outro dia quando fui fazer a peça, a bolsa estava consertada. Quando perguntei quem tinha consertado para poder agradecer, me disseram que só podia ter sido o Bita. E foi ele mesmo!”. A fonoaudióloga e professora da escola de teatro da UFBA, Ana Ribeiro, propôs a Argeu, assim que ele assumiu, a revitalização do Gamboa. Juntos deram entrada com seus projetos no Programa Estadual de Incentivo à Cultura – FAZCULTURA. Ele almejava a reforma do teatro. Ela, o incentivo para o seu primeiro espetáculo: ÉDuSek, criado especialmente para caber no palco do Gamboa. “O palco do teatro faz parte da alusão do contexto da peça. É pequeno e deu para reproduzir o cenário de um botequim do Rio de Janeiro desde a bilheteria do teatro”, conta Ana. Os julgamentos dos projetos também saíram em conjunto. A peça conseguiu o seu objetivo e a reforma do teatro foi negada.

A Resolução nº 779/2004, de 16 de novembro de 2004, dispõe do Critério para Avaliação de Projetos Culturais, considerando em um dos quesitos sobre reforma e manutenção o seguinte item: “Projetos de manutenção de instituições de direito privado, de natureza cultural, sem fins lucrativos e declaradas de utilidade pública estadual”. Sendo de natureza privada sem a característica de não ter fins lucrativos, o Gamboa não é considerado bem público, contrariando o regulamento do Programa.

A comédia musical, ÉDuSek, estreou em 11 de março deste ano. Ficando em cartaz até 1º de julho, as 64 pautas foram pagas através do Fazcultura, com o patrocínio da Companhia Hidrelétrica do São Francisco – CHESF. “As críticas da peça tem sido bacanas. Nosso objetivo agora é renovar o Fazcultura, estamos aguardando a abertura das inscrições para darmos entrada com o projeto novamente”, declara a diretora feliz da vida.

A situação financeira não é das mais otimistas. Segundo a administração, é difícil arcar com as despesas dentro de um contexto que não fomenta as produções teatrais. É delicado viver esperando os investidores e apoiadores. Bita ficou preocupado com a Lei de Incentivo Fiscal ao Esporte, nº 11.438, de 29 de dezembro de 2006, que permite a dedução no Imposto de Renda de até 4% do lucro líquido das empresas para investimento em patrocínio ou doação a projetos esportivos. Ele acredita que a lei pode, de alguma maneira, afetar o investimento das organizações na cultura, especialmente no teatro.

Fabiana acredita que um dos pontos chaves na falta de reconhecimento do teatro é a localização e falta de segurança da região. “Uma vez, quando estava vindo para o teatro, fui assaltada no ponto de ônibus mais próximo daqui”. Ela também alerta para a necessidade de uma melhor estrutura física no camarim. A aposentada Telma Santos, freqüentadora do teatro diz: “Gosto daqui porque é aconchegante e o atendimento muito cortês, só acho ruim na hora de estacionar. Quando não encontro vaga na porta tenho que colocar na frente do quartel”.

O diretor Fernando Guerreiro queria que a sua peça Shopping and Fucking estreasse, neste primeiro semestre do ano, no Gamboa. Como as pautas estavam todas comprometidas, Guerreiro entrou em cartaz no Teatro Molière (Aliança Francesa), onde ficará até 17 de junho. No segundo semestre, Argeu espera que nos palcos do Teatro Gamboa esse espetáculo fique em cartaz, e diz: “O Teatro Gamboa seria ideal para a proposta de Guerreiro”.
(maio de 2007)

 

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