Propaganda ambulante no centro de Salvador

Posted on 09/06/2007

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por André Freire

Mesmo com as mais avançadas ferramentas e tecnologias da publicidade, como computadores e programas especializados para designer gráfico, a propaganda ambulante, resiste ao tempo e ainda tem espaço no centro de Salvador. Numa tarde de sábado, foi possível encontrar algumas das pessoas que desempenham essa função.

Conhecidos como homem sanduíche, devido à placa publicitária que envolve o corpo dos anunciantes como se fossem duas fatias de pão, elas se misturam em meio a todo movimento de um centro agitado com pessoas transitando para todos os lados e prestam um serviço que é uma das poucas alternativas para os comerciantes do centro de cidade, que não possuem comércios bem situados. Os proprietários de lojas apostam nesse tipo de propaganda para atraírem a clientela e movimentarem a economia local.

Alguns parados, outros se movimentando de um lado para o outro. Na região que compreende a praça da Piedade até aproximadamente a Avenida Joana Angélica a presença dos homens sanduíche é uma constante e muitos aproveitam a região conhecida pelo forte comércio e faz da atividade, muitas vezes informal, uma forma de sobrevivência. Enfrentando o sol a pio, que fazia no dia, encontrei Jackson Santos, de 17 anos e morador do bairro de Fazenda Grande do Retiro. Ele conta que de segunda à sábado sempre se desloca para a região da Avenida Sete de Setembro, trajando bermuda, camiseta e um boné, para se proteger do sol. Seu trabalho começa por volta das 9h e se estende por todo o dia, até aproximadamente às 18h, quando retorna para casa e se prepara para estudar. Jackson está na 7ª série do ensino fundamental e, segundo ele, a atividade é muito desgastante e revela que muitas vezes não tem ânimo para ir à escola.

“A remuneração é feita de forma semanal e ganho em média R$ 30 a 40, para circular pelas ruas da Avenida Sete anunciando a comercialização de jóias, ouro e celulares”, conta.
Na mesma função, porém há mais tempo, está Antonio Carlos Silva, de 34 anos. No início da nossa conversa ele se mostrou desconfiado com a minha presença e satisfeito com o trabalho que desempenha. No entanto, quando perguntado sobre a remuneração que recebe, ele revela: “R$70 semanais não é o suficiente, mas é único meio de sobrevivência que tenho no momento. Já procurei outros empregos e coloquei muitos currículos, mas não consegui nada”.

A atividade, com raras exceções é desempenhada sem carteira assinada e isto representa para muitos a instabilidade, que os enquadra no crescente número de trabalhadores informais. Contudo, quem pensa que para se tornar um homem-sanduíche é tão simples, se engana. De acordo com Rosa Cerqueira, proprietária de uma pronta-entrega de roupas íntimas, próximo a praça da Piedade, é preciso selecionar os futuros funcionários que, segundo ela, além de atuar como propagandista da mercadoria é também um vendedor externo e, por tanto, precisa ser uma dinâmica e que passe confiança.

Joelma Silva, de 22 anos e moradora do bairro de São Caetano, é funcionária de Rosa Cerqueira e está na função há cerca de uma semana, na esperança de que, após o terceiro mês, tenha sua carteira assinada. Ela trabalha das 9h e 30 às 18h e 30, de segunda a sexta-feira e até às 17h aos sábados, para ganhar em média R$60 mais vale-transporte por semana. Ela também justifica está nessa função por não encontrar outro emprego e se queixa da cobrança excessiva, por parte da proprietária e do cansaço físico, por ter que ficar o dia toda de pé. Sua meta diária é de atrair 25 pessoas à loja, que é controlada rigidamente através de fichas que são distribuídas aos clientes e posteriormente repassadas à proprietária do estabelecimento.

De acordo com o designer Maurício Cunha, o homem-sanduíche é uma evolução de uma das formas mais primitivas da propaganda: o cartaz. Ele explica que a atividade se baseia na comunicação visual e utiliza cores fortes para chamar a atenção do cliente. “ É uma alternativa barata e que se torna muitas vezes mais eficiente do que a propaganda auditiva que precisa ser notada no momento. O cartaz, ainda que não seja observado a princípio, fixa melhor e nos permite captar a mensagem em segunda instância”, conta. Cunha complementa ainda dizendo que vêm acontecendo muitas mudanças, nesse tipo de propaganda e que as placas características a esse tipo de publicidade, aos poucos tem sido substituídas por fardas personalizadas com cores e logomarcas das lojas as quais representam.

(maio de 2007)

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