Pirataria na Avenida Sete

Posted on 09/06/2007

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por Paula Bulhman

A Avenida Sete é um ícone do comércio popular de Salvador. Encontramos nas ruas 25 de Abril, Rua do Cabeça e o Beco do Mucambo o verdadeiro comércio dos Cds e Dvds piratas. O comércio ilegal, além de ser uma forma de sobrevivência, é um meio mais acessível oferecido pelos ambulantes para que as pessoas ouçam seus artistas preferidos. Pagando um valor muito mais em conta, em média R$ 5,00 num Cd e R$ 7,00 num Dvd, vale ressaltar que a garantia de qualidade obviamente não é a mesma, muitas pessoas que adquirem o produto contam mesmo com a sorte.

Em meio à multidão de pessoas que transitam todos os dias pela Avenida Sete é comum observar o crescimento das vendas de Cds e Dvds piratas, encontramos muitas barracas ou bancas montadas com uma enorme diversidade de cds e dvds de artistas nacionais, internacionais e inclusive filmes que ainda estão sendo lançados no cinema.

O comércio informal de CDs e Dvds piratas no centro da cidade vem se tornando uma saída para aqueles que há muito tempo tentam uma vaga no concorrido mercado de trabalho. O desemprego é apontado por eles como a principal causa da venda de cópias do produto “pirateado”. A vendedora ambulante Aparecida Souza é um exemplo. Há sete meses montou a sua própria barraca na Rua 25 de Abril e a partir daí comercializa Cds e Dvds pirata. Cida, como é chamada carinhosamente pelos colegas, admite que ser vendedora ambulante não é uma profissão fácil, como muitos acham, pois no dia-a-dia passam por estress com a constante preocupação com o rapa que muitas vezes já chega intimidando e levando toda mercadoria, o que acaba causando um enorme prejuízo, afirma ela e num gesto agradece a Deus por nunca ter acontecido nada com suas mercadorias.

A vendedora tenta driblar essa realidade dura com um belo sorriso estampado no rosto é com muita simpatia que Cida conquista seus clientes buscando agradá-los tentando identificar o gosto de cada um e tratando os de um jeito especial. Com uma diversidade de mais de 200 Cds e Dvds de sucesso, ela diz que tem música pra todos os gostos e que no momento os mais procurados estão sendo os de Hip-Hop, a trilha sonora de novelas, os infantis e os de reggae.

Cida, que chega a ganhar por semana entre R$ 50,00 e R$ 90,00, comenta que para que seu lucro seja maior ela mesmo compra as mídias e as capas e pede para um amigo fazer a gravação, que faz com que saia mais barato para ela. Acrescenta ainda que está satisfeita com o que ganha, pois consegue ajudar bastante nas despesas da casa. Cida, que atualmente está concluindo o ensino médio sonha em fazer um curso técnico de enfermagem e diz: “Todo mundo deseja um futuro melhor, eu não poderia ser uma exceção”.

Se para Aparecida Souza que tem 24 anos está difícil se inserir no mercado de trabalho, para a vendedora Eliene Ferreira com 38 anos está mais difícil ainda, afinal moramos num país em que a idade conta muito na hora de conseguir um emprego.

Eliene, há oito meses está instalada na Rua do Cabeça, um bequinho apertado e degradado, como muitas ruas da Avenida Sete, onde todos falam ao mesmo tempo querendo atrair clientes. Com uma banca simples que divide com o seu irmão Eliene vende Dvds pirata. Ela já fez cursos de telemarketing, copeira e computação, mesmo assim não conseguiu o tão sonhado emprego. Ela diz: “Queria mesmo um emprego formal, ter uma renda fixa todo mês, trabalhar num lugar tranqüilo e menos tumultuado”. Eliene demonstra não gostar do que faz, as suas expressões mostram um desespero aparente.

Ela ganha por semana R$ 50,00 totalizando R$ 200,00 por mês. Com esse dinheiro ela paga toda semana as taxas de R$5,00 e R$15,00 ao segurança e também ao depósito pois eles guardam as suas mercadorias. Eliene diz que o dinheiro que ganha não dá para o sustento da sua família, e que por três vezes consecutivas já teve suas mercadorias todas levadas pelo rapa. Com lágrimas nos olhos afirma: “O desespero é muito grande, quando essas coisas acontecem penso na minha filha, faço das tripas coração para que ela não passe fome, isso parte o coração de uma mãe”.

Na sua banca, vende Dvds do momento como ela mesma caracteriza. Para atrair os clientes ela usa o jargão: “Venha freguês, só tem lançamento”. Ela explica que logo quando começou na profissão lucrava mais de R$ 700,00 por mês, porque eram poucas as pessoas que comercializavam o produto hoje o movimento diminuiu muito devido à concorrência.

Robério Silva é mais um desses batalhadores diário. Há seis meses no ramo, o vendedor trabalha para o dono de uma barraca que vende Cds e Dvds e fica situada no Beco do Mucambo. Entre um sorriso e outro ele conta que antes de escolher a profissão de vendedor ambulante colocou currículo em muitos lugares, mas por nenhum deles foi chamado. Ele procura atender os clientes mostrando seus produtos de forma alegre e simpática e com isso garante mais dinheiro no final do mês. As mercadorias vendidas por ele na barraca são compradas de um fornecedor e revendidas por ele. No final de toda semana ele recebe entre R$ 70,00 e R$ 80,00, as vendas são melhores no início do mês comenta ele. Ao som de Bruno e Marrone ele nos conta que seu sonho mesmo é fazer um curso para ser segurança e fala que não quer ficar muito tempo na profissão de vendedor ambulante.

Histórias como a de Aparecida Souza, Robério Silva e Eliene Ferreira caracterizam um cotidiano duro e estressante vivido por cada um desses cidadãos, que fazem malabarismos para que suas famílias sobrevivam de forma digna. Cidadãos que ficam divididos entre o medo da realidade e da repressão sofrida diariamente.
(maio de 2007)

 

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Posted in: ECONOMIA