Jogo milenar

Posted on 09/06/2007

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por Bárbara Paula

Um grupo de aposentados destaca-se entre o público intenso que diariamente transita pela Praça do Campo Grande. São freqüentadores assíduos. Sagradamente, de segunda a sábado, eles utilizam esse espaço público para praticar um jogo milenar: o dominó. A Associação de Dominó do Ananias foi criada para consolidar o prazer que este jogo proporciona em cada participante.
Há 20 anos atrás, Ananias Araújo, 38 anos, jogava com alguns fregueses de seu pequeno comércio de balas e chicletes, na própria praça, juntamente com amigos que residiam nas redondezas. Aos poucos um amigo convidava o outro, que convidava o outro, e assim, hoje, o grupo é composto por 32 jogadores de bairros diversos. A maioria dos jogadores já pertenceu a alguma outra associação de dominó. Devido ao clima de competição existente, eles acabaram migrando para a Associação do Ananias. Na mesma praça existe outra turma que se divide entre os tabuleiros de dominó, buraco e outros jogos oriundos do baralho. O jogo deles só é iniciado após as 20h e a convivência entre esses dois grupos é totalmente pacífica. “Eles tem o jogo deles e nós o nosso. Todo mundo está aqui para se divertir”, declara o líder da associação.

Poucos deles ainda exercem suas atividades profissionais. O próprio Ananias é funcionário da SUMAC – Superintendência de Conservação e Manutenção da Cidade do Salvador, órgão da Prefeitura Municipal. Ele sai do trabalho às 16h30 direto para a sua segunda jornada: as partidas de dominó e seu comércio. “Quando vim do interior para Salvador, o primeiro lugar que parei foi aqui no Campo Grande. Sempre digo que meu umbigo está preso aqui nessa praça”, declara.

Em frente à Reitoria da Universidade Católica do Salvador, das 16h às 20h, às vezes até às 21h, a associação tem encontro marcado. A responsabilidade pela banca, como é chamado o tabuleiro do jogo, é dividida com o aposentado Alberto Mendes, 64 anos, morador do bairro de Tancredo Neves. O jogo só é iniciado com a presença de um destes senhores, já que somente eles possuem a chave do armário onde ficam guardadas as duas bancas, os dominós e as cadeiras. “Para a manutenção da banca, do dominó e para dar um agrado ao funcionário que deixa a gente usar o armário do estabelecimento aqui ao lado, é cobrado uma taxa mensal de R$ 2 por jogador”, fala Alberto.

Toda associação tem suas regras, e essa não é diferente. A primeira delas é que a idade mínima para entrar no grupo é de 35 anos. Eles acreditam que gente nova pode querer bagunçar a brincadeira da velha guarda, como revela Agenor Dias, 65 anos, integrante do grupo há quase um ano. Porém, como toda regra tem sua exceção, Tiago Sena, 22 anos, trabalhador e morador da região, é o caçula do grupo. “No começo, como não podia jogar, ficava observando e tentava me integrar. Passei um bom tempo só olhando o jogo até eles criarem confiança em mim, me deixando fazer parte”. O grupo admite que Tiago junto com Ari Martins, 57 anos, funcionário do Hotel Aquidabã, formam uma das melhores duplas.

 

Quando a capacidade desses jogadores é colocada à prova, o soldado Oliveira, da Polícia Militar, 26 anos, que trabalha no local há seis meses, brinca: “Se eu chegar na idade deles com a mesma lucidez, fico feliz. Tem senhor aí com mais de 65 anos e jogando melhor que menino novo”. E para manter o poder de raciocínio aguçado eles não perdem um encontro por nada, somente a chuva é capaz de afugentá-los. Quando chove, eles são obrigados a acabar o jogo. Pensando nisso, a associação planeja comprar uma lona e montar uma estrutura que não os impeça de se reunirem, mesmo quando o tempo não é um dos melhores. Agenor conta que sua família se preocupa com a frieza e o sereno que ele enfrenta nos dias mais frios.

Em dezembro de 2006 foi realizada uma grande confraternização em plena Praça do Campo Grande. O auge da festa foi a entrega de troféus às duas primeiras duplas vencedoras da competição que foi promovida. Os familiares dos jogadores estavam presentes e felizes por partilharem do prazer de cada um deles em participar de um grupo social ativo. “Aqui é uma diversão para gente, uma brincadeira. É melhor do que ficar em casa pensando besteira. Cabeça vazia só pensa o que não presta”, diz Alberto. Atendendo aos pedidos, a associação promete repetir a dose após o São João fazendo uma nova confraternização. No que depender desses senhores, a animação está garantida.
(maio de 2007)

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