“Tá dominado, tá tudo dominado”

Posted on 09/06/2007

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por Ana Paula de la Orden

Ainda cedo, chovendo ou fazendo sol, os primeiros vendedores chegam para montar suas bancas, alguns com lugar fixo, outros aventurando um pedacinho de chão, que aos poucos vai sendo tomado por seus “amigos” concorrentes, com barracas repletas de cds e dvds de todos os tipos e estilos musicais, que vão desde o sertanejo, passando pelos pagodes e axés baianos até o gospel. A mistura de ritmos, sons e vozes se misturam em meio a tantos outros. O lucro mensal varia entre R$300 a R$600, a facilidade na venda de cd e dvd é um chamariz para os trabalhadores informais. “Já foi melhor, já cheguei a ganhar até R$ 1000, quando o dvd era R$10 e o cd R$ 5. Como cresceu a concorrência, não dá mais pra tirar esse valor, por que o preço baixou”, conclui o vendedor José*, 38 anos, que tem ponto fixo na Lapa. A busca pela sobrevivência, a falta de capacitação profissional e o baixo nível de escolaridade acabam sendo os principais fatores que levam indivíduos a se envolverem com a venda de produtos pirateados. Mesmo sabendo que é um negócio ilícito, encontram no mercado informal o meio para sua sobrevivência e o da família.

Quer comprar?
O local mais procurado para o consumo de produtos piratas é o centro de Salvador, entre a Lapa, a Piedade e a Avenida Sete. Porém em toda a cidade são facilmente encontrados vendedores de cd e dvd pirata andando pelas ruas ou fazendo exposição de produtos sob os passeios e em pontos de ônibus que se transformam em verdadeiras discotecas. Entre um cliente e outro, a diversidade dos títulos de filmes e artistas, o ambiente e a forma com que esses trabalhadores conquistam seus clientes é um show de interpretação à parte em busca do “pão de cada dia”. Ademais, alguns vendedores possuem equipamento para testar os dvds e cds, e dão garantia em caso do não funcionamento em determinados aparelhos.

Apesar da resistência encontrada entre os vendedores para falar sobre o assunto, um ou outro se arrisca e usa letra de música para definir o que acha da pirataria que, em poucas palavras, consegue dar um panorama real da situação existente numa das maiores capitais do Brasil: “Tá dominado, tá tudo dominado”, diz João*, 25 anos, vendedor de “piratas”, há três anos.
Opinião Para alguns consumidores, o maior atrativo é o preço, enquanto o item qualidade é deixado de lado. “Se por acaso os cds e dvds originais fossem vendidos por um preço mais em conta até arriscaria a pagar, mas como é caro, acabo comprando mesmo o pirata”, diz Conceição Reis, 47 anos.

Os pontos de vistas acerca do consumo de cds e dvds variam entre os consumidores, todavia a maioria acha normal comprar “pirata”. “Sei que é ilegal a venda, por não serem recolhidos os impostos, mas pelas circunstâncias do país, pagamos muitos impostos e o que temos em troca? Sei que não é certo, mas é difícil viver num país em que a desigualdade social domina e por conta disso acontece o que acontece”, conclui Maria Pereira, professora aposentada.

Apenas uma em 10 pessoas entrevistadas relatou que era contra, como foi o caso de Carolina Dias, estudante de direito, 32 anos. “Sou totalmente contra a pirataria, não se pode usar a falta de emprego como desculpa para fazer algo que não é legal, falta às pessoas informações sobre o assunto que é pouco divulgado”, cita, relacionando a campanha “Pirata tô fora, só uso original”. A campanha foi lançada em março de 2006, visando levar o indivíduo a conscientizar-se dos efeitos negativos produzidos pela pirataria e ao mesmo tempo defendendo a propriedade intelectual.

Apesar de campanhas de repressão e conscientização contra a pirataria, ainda é grande a venda deste tipo de produtos. Segundo dados do Sindicato Nacional dos Auditores-Fiscais da Receita Federal (Unafisco), o país perde cerca de R$ 30 bilhões em impostos por ano com a venda de produtos ilegais. Na Bahia, o prejuízo chega a R$ 220 milhões. No topo da lista, o cd e o dvd vêm sendo os campeões de vendas, seguidos pelos óculos, sejam de sol ou de grau, relógios e brinquedos. O Brasil está incluso entre os 10 países onde há a predominância da pirataria.
Distribuição A maioria dos produtos pirateados vêm da cidade de Feira de Santana (interior da Bahia), de uma feira denominada “Feiraguai”, velha conhecida até mesmo de quem não é ambulante por sua vasta quantidade de produtos pirateados e clandestinos, entretanto a fabricação de cópias não se restringe apenas a este pólo. A facilidade encontrada para a produção de cópias caseiras através de softwares que já vêm instalado nos computadores acaba ajudando na propagação de cds e dvds piratas.

“Alguns vendedores daqui (Lapa) distribuem também, eles alugam salas por perto e fazem de laboratórios, facilitando a distribuição dos cds e dvds piratas mais rápido, além de cada cópia poder ser reproduzida em até 3 minutos”, diz José*. Porém o maior problema está por trás dos pequenos vendedores, organizações criminosas que utilizam trabalhadores que servem apenas de fachada para acobertar atividades ilegais ligadas a contravenção, contrabando de armas e ao narcotráfico que acaba se tornando um problema público. *Os nomes são fictícios para preservar as fontes.
(maio de 2007)

 

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Posted in: ECONOMIA