Solidariedade nas ruas

Posted on 02/04/2007

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por Andrea Dantas

 

O movimento intenso sempre foi uma característica marcante da Praça da Piedade. Além dos turistas, idosos, aposentados, casais e estudantes, existe um grupo bastante numeroso formado por indigentes e pedintes que freqüentam o local e até o utilizam como moradia. Há anos, esse quadro motiva a ação de grupos solidários que elegeram a Praça da Piedade como um ponto ideal para a prática de caridade. Mas, paradoxalmente a isso, as igrejas da região, que também sempre foram bastante atuantes neste tipo de atividade, hoje não praticam mais essas obras solidárias e até proíbem seus fiéis de fazê-las nas áreas próximas às paróquias.

Nem sempre é fácil ter um gesto de solidariedade e vários são os motivos. De acordo com Frei Ulisses Bandeira, que há 10 anos administra a Igreja da Piedade, da Ordem dos Capuchinhos, o crescimento do número de pessoas que vão em busca da doação é um deles: “No início eram atendidas 120 pessoas, mas foi aumentando de um jeito que ficou difícil organizar o trabalho”. O vendedor de picolé Jean Eleodoro, 19 anos, confirma a informação do Frei, pois, segundo ele, ao longo dos quatro meses que vem trabalhando no perímetro Campo Grande/ Piedade viu crescer, consideravelmente, o número de pedintes.

Outro motivo que dificultou a distribuição de alimentos aos mais necessitados foi a violência gerada, pois o momento da doação acabava se constituindo numa oportunidade para a ação dos marginais, que se aproveitam da aglomeração para agir. “É um risco para quem se dispõe a uma prática dessas. Os próprios beneficiados lutam entre si e acaba sobrando para quem estiver presente”, afirma Frei Ulisses. Segundo ele, antes, vinham pegar a doação somente os indigentes de localidades próximas como Nazaré, Carlos Gomes, Barris, Campo Grande, agora, vem gente até da periferia.

O Frei não teve alternativa senão transferir a distribuição, que era feita diretamente para as pedintes no auditório da igreja, para algumas instituições carentes da região, como o Abrigo Mariana Magalhães e a creche da Ladeira da Montanha, além de dividir os alimentos recebidos com a Igreja da Pupileira, localizada na Avenida Joana Angélica, e que também pratica esse tipo de ação. “É um problema social, a Igreja, por mais que tente, não tem capacidade de absorver. Mas, de alguma forma, a ação ainda é praticada por conta da devoção dos fiéis que colaboram levando os pães à igreja”.

No outro lado da praça, onde está localizada a Igreja de São Pedro, o pároco Aderbal também proíbe a distribuição de pães na frente da igreja. Parece uma atitude paradoxal uma igreja negar doação, mas, quando o padre enumera as barbaridades que já ocorreram por conta disso, há de se compreender. Segundo ele, na última terça-feira que uma Kombi parou para distribuir sopa, teve assalto com direito a tiroteio culminando na prisão de “Pipoca”, um marginal conhecido na área. “É uma faca de dois gumes, então, os devotos que freqüentam nossas missas já sabem que se quiserem doar algo, doa para a igreja, daí eu encaminho para comunidades carentes”, afirma o pároco. Antes, a Praça da Piedade tinha dia e hora certos para a distribuição de sopa, pão e mingau, hoje, esporadicamente, se vê um grupo de corajosos que vão se arriscam e doam apesar dos perigos.

Solidariedade incansável

É uma luta tanto de quem recebe a caridade quanto de quem a pratica. A desistência, muitas vezes, é mais viável, mas há quem enfrente firme a causa e continue trilhando o caminho da solidariedade. Seguindo pela Avenida Sete, passando para a Carlos Gomes e entrando num beco à esquerda, chega-se mais rapidamente à Rua Sodré, onde está localizada a sede da Missão Batista do Pelourinho. O grupo beneficente é liderado pelo pastor Aurizer e sua esposa, Irmã Eliete, e todas as quartas-feiras, chovendo ou fazendo sol, distribui sopa para uma média de 150 pessoas. “Só não distribuímos se tivermos algum problema com as doações dos fiéis”, afirma Irmã Eliete. Ela conta que antes faziam a doação no Pelourinho, mas há três anos a Igreja Evangélica do Dois de Julho cedeu um prédio para a Missão.

Quem conhece o trabalho do grupo, como Juracy Pinho, funcionário há sete anos de uma molduraria na Rua Sodré, diz que é um trabalho organizado. Moradores da Rua da Preguiça, da Visconde de Mauá e do Comércio são os principais favorecidos com o programa. Percorrendo o prédio da Missão, percebe-se que a instituição atua de corpo e alma num projeto que para uns é caridade, mas que Irmã Eliete prefere chamar de “trabalho sócio-religioso”. São três andares dedicados ao atendimento de parte da população carente. O térreo é onde acontece a distribuição dos alimentos, no primeiro piso está localizada a cozinha industrial, onde é feita a sopa, e, no segundo andar, um banheiro espaçoso e um auditório estão à disposição de quem precisar cuidar da higiene pessoal ou necessite ficar por lá mais um tempo ouvindo o culto ou até mesmo descansando. Além da distribuição da sopa, os mais carentes recebem vestuário e tratamento médico. “É um centro de recuperação que está começando”, informa Irmã Eliete. Os interessados em doar alimentos, roupas ou medicamentos podem entrar em contato pelo telefone (071) 247-1079 e falar com o Pastor Aurizer.

(junho de 2004)

 

 

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