Rua do couro

Posted on 02/04/2007

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por Maria José Rocha

Na Rua do Couro, como é conhecida popularmente, mas que para a administração da cidade tem o registro de Ladeira da Barroquinha, existe um conjunto de 20 boxes que vendem artigos em couro. Com a construção dos shoppings, o comércio no centro da cidade sofreu muito e acabou fechando lojas que durante muito tempo fizeram parte da vida da elite baiana. A Rua Chile, logo acima, era o local mais chic para as compras. Hoje, muitas lojas do centro fecharam as portas, diminuindo o movimento de clientes. Mas a Rua do Couro resiste à crise do comércio do centro.

Nessa ladeira, se concentram barraqueiros com uma infinidade de artigos em couro. Hoje são 20 barracas, mas quando Juscelino Nery Conceição, que não quis revelar sua idade, chegou, há 30 anos atrás, tinha apenas quatro barracas. Da venda dos artigos em couro – que engloba calçados, bolsas e chapéus vindos de Jorro, Feira de Santana, Ipirá e Jequié – Juscelino sustentou seus três filhos e não se queixa de ter passado por alguma dificuldade financeira. Muito pelo contrário, pois seus filhos estudaram, dois fizeram faculdade e ainda tem sociedade com o terceiro numa agência de carros.

Apesar das vendas terem caído, devido ao deslocamento das pessoas que freqüentavam a Rua Chile para os shoppings, o que ocasionou o esvaziamento das lojas e conseqüentemente o fechamento dos estabelecimentos que funcionavam há muitos anos, o entrevistado diz que ainda hoje consegue um bom resultado nas vendas. Com o investimento do governo no turismo da cidade, no período de alta estação as vendas aumentam. Mas não é só o turista que sustenta suas vendas, é o povão mesmo, a clientela baiana que é bastante assídua e significativa.

Juscelino se recorda de clientes famosos que já teve, citando alguns nomes como o do vereador Maltez Leoni, que conseguiu se reeleger por seis vezes, sua esposa e muitas outras figuras que fizeram parte da história política da cidade e passaram de clientes a amigos do barraqueiro. Ele não acredita no retorno das pessoas com a revitalização do comércio na parte antiga de Salvador. Segundo ele, o que poderá melhorar um pouco as vendas do comércio é a reforma da Igreja da Barroquinha, que será transformada no Centro Cultural Coliseu das Artes, acrescentando que a prefeitura propôs aos barraqueiros a instalação das barracas dentro do centro. Conseqüentemente, com a freqüência de visitantes, aumentará as vendas trazendo um movimento maior ao comércio da Avenida que está esquecido.

Quanto à segurança no local, o barraqueiro, que possui dois boxes, sendo que um é alugado, diz que durante algum tempo houve várias ocorrências, mas atualmente eles contrataram vigias para zelar pela segurança do comércio. A própria administração da cidade, depois de algumas reivindicações através de abaixo-assinado dos comerciantes da área, aumentou o número de guardas nas ruas.

Mas a sua barraca já foi assaltada duas vezes. Na primeira vez, foram levados vários pares de calçados e na segunda aconteceu um fato inusitado. Juscelino, que mora num prédio em frente à barraca, conta com muita graça que, durante a greve da Polícia Militar, quando a cidade ficou sem nenhuma segurança, estava na janela do seu apartamento quando percebeu que seu box estava sendo roubado. Ele então deu um grito e pediu aos assaltantes que não fizessem aquilo, daí eles disseram que precisavam de algum dinheiro então o barraqueiro jogou alguns trocados da janela evitando que sua barraca fosse arrombada.
Mesmo desacreditado com a proposta de revitalização, mas não desanimado com seu negócio, o barraqueiro afirma que há um aquecimento das vendas no período do São João, pois muita gente procura sua barraca para adquirir um dos modelos, que são muitos.

Das pessoas que chegaram na Rua do Couro mais ou menos na mesma época que Juscelino, não existe mais ninguém. Alguns morreram e outros passaram o negócio para os filhos, como é o caso da mãe do barraqueiro Jaime Oliveira, dona Adélia Silva, que faleceu há dois anos, mas que durante 25 anos sobreviveu das vendas do couro. Seu filho Jaime diz não ter vontade de se desfazer do box em respeito à memória da mãe, que tinha muito afeto pelo trabalho na barraca. Outros desistiram, só Juscelino permanece com seu ponto, por gostar muito do que faz. Ele garante não ter se arrependido em nenhum momento de ter escolhido trabalhar com couro, pois é da sua barraca que tira o sustento da família.
(junho de 2004)

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