O poeta das flores e das ruas

Posted on 02/04/2007

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por Bárbara Lima

O céu estava nublado e a chuva logo começa a cair. Na Ladeira da Barroquinha, próximo à Praça Castro Alves, Wagner Américo da Silva, o Poeta das Flores, arruma a barraca para não molhar as mercadorias. Há 18 anos ele tira sua renda da aposentadoria e das vendas como camelô. A poesia é um refúgio para uma vida cotidiana tão cansativa. “Aquela vitamina que o homem precisa para ser feliz. É isso que a poesia foi e continua sendo para mim”, explica.

Com 78 anos e três filhos, Wagner guarda no rosto as marcas da vida. Desde criança gostava muito de estudar e, em 1971, se encantou pela poesia e escreveu seu primeiro poema: “Findar do ano”. Daí em diante não parou mais e começou a oferecer flores às pessoas que o escutavam. “Eu comprava flores naturais para ofertar. Mas uma senhora me ensinou a fazer flor de fita. A partir de então Deus tem segurado a minha mão e eu começo a fazer flores. Depois disso, a senhora Beni do Carmo, uma amiga, me deu o apelido de Poeta das Flores. Aí pegou!”, afirmou ele.

Wagner da Silva era dono de uma rede com três armarinhos, mas nunca teve ambições na vida. Foi quando resolveu rasgar a carteira de motorista e rasurar os talões de cheque para virar camelô. Mora no bairro da Liberdade e escolheu a Ladeira da Barroquinha, bem em frente ao Hotel Castro Alves, para montar sua barraca, porque o local tem bom movimento. Ele confessa ter uma grande vontade de deixar de ser camelô, mas não tem condições, pois o dinheiro ganho na barraca é usado nos eventuais problemas de saúde. “Não quero ficar inútil, sentado em casa assistindo televisão, sem passar o meu eu para o mundo. Assim eu vou morrer mais depressa”, disse ele.

Tendo como referência poética Castro Alves – e por coincidência está bem próximo à Praça Castro Alves – começou declamando em colégios. Ele já declamou em diversos lugares, entre eles a Ufba, a extinta Galeria 13, os colégios Isba, Persona, Fênix e Educar. Hoje lamenta não ser mais chamado para fazer trabalhos em escolas e apenas declama em igrejas aos domingos. Já sofreu muita repressão e foi até ameaçado de morte: “Um homem queria que eu parasse de ofertar flores porque eu já estava aborrecendo. Fomos parar na delegacia. Também fui repreendido ao ofertar flores a uma senhora e o marido dela não gostou. Eu respeito o ambiente onde eu esteja, mas também exijo respeito”.

Por escrever poesia, há quem considere Wagner da Silva um louco, garante Cosme Ferreira, 53 anos, e também barraqueiro. “Eu acho muito bonito o trabalho que ele faz. Ele é muito talentoso e merece respeito, como qualquer outra pessoa”, afirmou ele. Com vários poemas escritos em pedaços de madeira e expostos no chão, Wagner tem 97 composições memorizadas e mais de 5.619 flores com mensagens entregues. Um de seus projetos é publicar um livreto com seus contos e principais poesias, utilizando seus próprios recursos.

 

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Poeta cidadão

O Poeta das Flores não esquece de exercer sua cidadania. Lutou para que esgotos fossem limpos e buracos fossem tapados, e conseguiu. Também faz um longo trabalho para restauração da Igreja da Barroquinha, que foi incendiada em 1984, e até hoje nada foi feito. “Há mais de 10 anos luto para transformá-la em um museu. Até coloquei fragmentos que caíram da igreja na mesa de alguns deputados na Câmara, mas não adiantou. Eu sou incansável”, conta ele.

Ao relatar a maior experiência de sua vida, Wagner deixa transparecer a emoção que sentiu. Foi quando declamou junto com seu filho Strauss, na época com 10 anos, no Shopping Barra. “Era a história de dois amigos inseparáveis, que morriam juntos e de braços dados. Foi lindo! Com certeza o acontecimento que mais me marcou dentro da poesia”, afirmou. Com sua poesia, também já tirou muitos jovens das drogas e da bebida.

Wagner da Silva, como a maioria das pessoas desse Brasil, trabalha para sobreviver. Mas, como poeta, trabalha para tornar a vida das outras pessoas um pouco mais feliz. E se considera muito feliz, não totalmente por conta da idade. Ele se autodefine num poema: “No mundo louco de poesia e felicidade, o vil metal faz com que eu seja louco ativo e não possa viver no mundo dos loucos passivos. Eu sou louco”.

(junho de 2003)

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