As histórias de seu Eurípides

Posted on 02/04/2007

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por Camilla Pitiá

Em frente ao Relógio de São Pedro, um senhor com a face marcada pelo tempo ocupa o ponto onde é engraxate há 13 anos. Eurípides dos Santos, ou simplesmente Seu Eurípides, tem uma vida agitada e muitas histórias para revelar. De uma simpatia cativante, cumprimenta a todos com um sorriso largo e atende todos os seus clientes com muita atenção. Nascido no recôncavo da Bahia, começou a trabalhar cedo e mudou-se posteriormente para São Paulo, onde trabalhou como jornaleiro. Desse tempo, lembra-se com saudade da amizade que possuía com celebridades.

Seu Eurípides saiu do recôncavo baiano aos 12 anos, veio para Salvador morar com a irmã mais velha e desde muito cedo começou a trabalhar. O engraxate afirma que trabalho nunca foi problema e que nunca existiu um dia na sua vida que tenha ficado desempregado. Por isso fala com orgulho das diversas profissões que teve. “Eu sempre, graças a Deus, trabalhei. Nunca tive desemprego, nunca tive situações difíceis”, afirmou.

E é lembrando do passado que esse senhor de 72 anos mostra como os tempos mudaram. No início, trabalhou como baleiro, foi quando começou a ganhar a vida. Ele conta que, na época, para trabalhar com qualquer tipo de alimentação tinha que ter carteira de saúde, “tirar chapa do pulmão”. E diz sentir falta disso, pois “a Bahia era mais organizada, tinha uma política de Saúde Pública. Ninguém trabalhava com nenhuma enfermidade”. Para ele, com essa organização, “os rapa” não existiam e quando algum ambulante aparecia sem a “carteirinha” que liberava o trabalho era encaminhado ao centro médico para solicitá-la: “Não era como tem esses rapa hoje em dia que pega tudo das pessoas e leva embora”.

Depois desse período, Seu Eurípides começou a trabalhar como cobrador de ônibus, mas foi por pouco tempo, pois logo depois se mudou para São Paulo, mais uma vez acompanhando seus irmãos. O primeiro emprego lá foi como metalúrgico, mas esse trabalho durou pouco. Após um acidente de trabalho, foi aposentado por invalidez, ficando durante algum tempo “encostado pela Caixa”. Por não conseguir ficar parado, Seu Eurípides montou uma banca de jornal, onde ficou durante 30 anos.

Ser jornaleiro foi o trabalho que ele mais gostou e do qual fala com muito carinho: “Eu adoro aquele trabalho. É uma coisa que institui muito a pessoa. A gente fica conhecendo muitas pessoas, é uma grande diversão”. E foi com bom humor que ele contou as mais diversas histórias da época em que era jornaleiro, se orgulhando principalmente dos clientes famosos e da amizade que mantinha com eles. “Eu tive muito contato na casa do Sílvio Santos, com a mãe do Maluf. O Tarcísio Meira e a Glória Menezes também. O filho deles, o Tarcisinho, eu conheci muito pequeno, ia comprar a revista do Pato Donald”, relembra.

Seu Eurípides afirma que jornaleiro fica sabendo de muitas coisas, porque as pessoas passam a confiar e a contar o que estão sentindo quando têm problemas. “Às vezes conversava bastante, a pessoa com a cabeça cheia por qualquer coisa descarrega. É o que acontece muito com o jornaleiro”, confirma.

Retorno
A profissão de jornaleiro só foi deixada de lado quando teve que retornar a Salvador, por conta de problemas de saúde. O frio de São Paulo era responsável por mantê-lo com fortes dores musculares e com pouca circulação do sangue. “Eu pegava muita friage, aí uma médica disse que eu tinha que ir para um lugar quente, então resolvi retornar para Salvador”, afirma.

Em um dos poucos momentos de tristeza, o engraxate fala sobre a sua volta, pois, após vender a sua residência e a sua banca de jornal, o presidente na época em exercício, Fernando Collor de Melo, confiscou o dinheiro da poupança de todos os brasileiros no intuito de reter a inflação. “Quando cheguei aqui foi na época que o lazarento do Collor passou a mão no meu dinheiro. Fiquei sem nada, mas não baixei a cabeça”, fala indignado.
Foi aí que começou a trabalhar como engraxate e desde então ocupa o ponto ao lado do módulo policial na Avenida Sete. Para o aposentado da Petrobras Francisco Neves, cliente do engraxate há dois anos, o carisma de Seu Eurípides é o que mais fascina. “É um homem trabalhador, é um homem que é difícil de ver. Um homem educado e dinâmico que, pela idade, já era pra tá aposentado, mas continua firme e trabalhando”, afirma.

Família
O engraxate demonstra que a família é a coisa mais importante da sua vida. Casado há 25 anos com a sua segunda esposa e com três filhos que moram em São Paulo, ele mostra-se saudoso. “Tenho três filhos e quatro netos. Não tenho muita oportunidade de encontrar com eles, mas a saudade é grande. Se Deus quiser vou no meu aniversário pra São Paulo”.

Ele conta que apesar de não ter contato com os netos, liga todas as semanas e sempre pede para falar com eles, principalmente com a neta mais nova que ainda não conhece. É assim também com os três filhos, sempre procurando não perder contato: “Sempre tive uma relação muito boa com a minha família, nunca brigamos. Sempre tive o apoio e sempre apoiei eles”. E é com esse apoio da sua família e a constante alegria, que Seu Eurípides diz ter muito que viver. “A vida é muito boa se a pessoa sabe viver. Tem que pensar no dia de amanhã, no futuro. Fazer sempre coisas boas”, aconselha com a experiência de quem muito já viveu.
(junho de 2004)

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